29 junho 2006

Angústias do Coração


Pela primeira vez, vou usar esse blog como o que ele inicialmente deveria ser: um diário. Preciso escrever, já que essa é a única maneira que encontro - além de cantar e tocar violão - para desabafar, e ainda assim, vejo que não vou conseguir... Pois bem, tentemos, então, visto que não tenho outras válvulas de escape... Nunca havia me atraído tão fortemente por mulheres mais velhas quanto agora. Vejo-me esperando as horas passarem devagar demais, à espera da próxima vez em que eu a veja apontando na esquina. E eu ainda nem a beijei... Fala comigo, demonstra sinais de carinho, deixa-me tocá-la com um pouco mais de atrevimento, mas nada que o bom senso reprima. Dorme nos meus ombros, beija-me a face com muito mais que respeito por um filho, ou alguém mais novo, como de fato, sou. De uns tempos pra cá, isso tem se intensificado...


Numa dessas ocasiões, ela estava dormindo em meu ombro. Estávamos sentados lado a lado no ônibus, e o seu ponto de parada estava chegando... Susurrei-lhe ao ouvido "você estava aí dormindo e me deu uma vontade de te dar um beijo...". Para minha surpresa, depois de uns dois segundos, ela disse "e por que não deu?". A única coisa que eu consegui responder, foi um "sei lá, as pessoas tem as reações as mais diversas possíveis...", visto que a sua parada estava próxima, fui pego de surpresa com essa resposta, e ela já estava se levantando. Aquilo me deu esperanças de sentir o coração bater mais forte de novo, estou a tempo demais sozinho sem saciar o meu romantismo...

No dia seguinte, algo estava errado. Esquivava-se dos meus carinhos, recusou-me até um beijo no rosto, como sempre fazíamos pela manhã, quando nos víamos. Acabou me confessando que não estava bem. Senti que não era uma daquelas desculpas esfarrapadas, de quem quer afastar um galanteador mal sucedido, um homem longe dos seus padrões de beleza, ou algo do tipo. Senti o seu olhar perdido, longe; sua respiração era preguiçosa, como quem estivesse esperando coragem para enfrentar a vida. Não consegui fazer o que tinha de fazer, era penoso ver aqueles olhos quase cheios de lágrimas. Pedi para conversar sobre o assunto, perguntei se havia algum medo, receio ou alguma outra coisa no coraçãozinho dela, se o problema era comigo, e ela apenas dizia "não". Passei o resto do dia preocupado com o que poderia ter acontecido... Hoje, ela ainda estava assim. Dei-lhe um cd de presente (montado, é claro) com as músicas mais românticas que eu tinha no computador. Queria passar o que eu estava sentindo, e parece que consegui. Ainda assim, não tive permissão pra saber o que havia de errado com ela. Sussurrei-lhe, de novo, ao ouvido: - Lembra que eu te disse que eu estava morrendo de vontade de te dar um beijo? Lembra que você me disse que não estava bem, meio angustiada? Eu estou aqui lhe vendo cochilar, ouvindo estas músicas, e ainda com a vontade de te beijar. Mas não consigo fazer isso sabendo que você não está bem. Preciso respeitar os seus sentimentos, não quero me aproveitar da situação, e o fato de não estar conseguindo fazer você se sentir melhor também me deixa angustiado... Só vou matar a minha vontade quando você me disser que se sente melhor... Ela virou o rosto na minha direção, olhou nos meus olhos, deu um breve sorriso e apenas disse: "está bem".

Conversamos pouco durante o resto do caminho, ela ainda sentia dificuldades em sorrir. Eu queria ter o dom de ler pensamentos... Seu ponto chegou, ela se levantou, arrumou suas coisas, pediu licença para passar, e, de longe, se despediu com um beijo. Desci no meu ponto, e tive vontade de cantar para afastar a preocupação de que eu era acometido. Algumas lágrimas quase escorreram pelos meus olhos. Parece que o céu se comoveu comigo, e também resolveu chorar. Hoje ele está cinza, triste, como eu. Estou aqui a escrever, e ele ainda chora... Ainda tenho o medo de me envolver demais. Tenho medo de fazê-la sofrer, caso eu encontre alguém mais jovem por quem sinta algo ainda mais forte, ou que ela encontre algum homem mais maduro, com o qual se sinta segura de verdade, e não apenas vivendo uma aventura. Dúvidas, medos, receios... Sinto-me um adolescente de novo...

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Comentários
4 Comentários

4 comments:

Soriano disse...

Hoje as coisas parecem um pouco melhor. Sorriu mais, ouviu o cd que eu havia lhe dado, e me parece estar propensa a encarar um relacionamento, ainda que aberto.

- A que horas você chega em casa?

- às 22:30, às vezes 22h,raramente às 21:30... Tá querendo sair comigo?

- Nossa, como você é direto... Que tal hoje?

- Feito. Para onde nós vamos?

A conversa tomou um rumo de "aguarde e confie" (salve Renato Aragão), e espero que até o fim desta noite, algo de bom aconteça...

Uma amiga minha me disse (depois que eu lhe pedi que olhasse o texto que escrevi) que eu deveria tratá-la mais como amiga, nessas horas em que não se sentisse bem do coração, do que como mulher... Que eu não deveria pedir permissão, mas usasse tratados tácitos de corpo e gestos... Isso me pareceu óbvio a princípio, mas sinto que é mais que isso, é indispensável, necessário, imprescindível...

Espero que eu tenha sorte, e que realmente seja isso que eu desejo e sinto...

Soriano disse...

Cheguei ao local combinado, e ali fiquei esperando por quase meia hora, até que ela chegasse. Eu havia chegado cedo demais (como sempre costumo fazer), e estava pensando em coisas boas e más a respeito de relacionamento. Queria ter a certeza de que estava com a mente limpa para ouvir com naturalidade tudo o que ela queria me dizer.

Ela chegou, e fomos ao ponto de ônibus, para irmos (?) para casa. Abracei-a, novamente, e fiz vezes de amigo confidente. Ela, depois de desabafar um bocado sobre a sua vida amorosa e profissional, sentiu-se um pouco melhor. Senti-me aliviado, não porque ela havia parado de falar sobre seus problemas, mas dela ter se sentido melhor contando tudo aquilo para mim. Consegui roubar-lhe um beijo, de supetão, como crianças pequenas fazem nas festas de colégio. Apenas sorriu, olhando para mim, e disse “seu doido...”. Beijei-lhe a face diversas vezes, outras a boca, de raspão. Falamos sobre os filhos dela, de qual poderia ser o motivo de eu ser assim tão fechado, do medo que as pessoas sentem de se apaixonar, e de diversas outras coisas, como se ela estivesse preparando o terreno... Até que o nosso ônibus chegou.

De novo, como sempre, sentamos lado a lado. Ela parecia muito mais a vontade que das outras vezes. Assim que entramos no ônibus, comemos biscoito. Engraçado, ela me dava cada um na boca, e eu os colocava inteiros na boca, mastigando duas vezes e engolindo-os, esperando pelo próximo... Até que ela sentiu a hora de falar o que realmente queria. Disse que já havia se entregado aos seus sentimentos algumas vezes, mas aquele não era o momento. Ela queria se sentir livre, emocionalmente, financeiramente, e em todos os outros possíveis sentidos, para pensar em se relacionar com homens para algo mais que alguns simples beijos. Depois de ter ouvido todo o seu desabafo, pude entender, e sem dizer nada, concordei com o que ela sentia...

Era difícil, para mim, arrumar argumentos para tudo o que eu acabara de ouvir. Sair de um relacionamento difícil como era (e ainda é) o dela, para se aventurar com alguém que, de maneira alguma, poderia dar alguma “segurança” a ela. Quando falo em segurança, falo daquele sentimento de proteção que as mulheres gostam de sentir ao lado de um homem. Já ouvi muitas mulheres falarem sobre seus relacionamentos, já levei diversos “foras” antes de entender o que isso significa. Enfrentar o preconceito, as más línguas, para viver algo que fosse possivelmente breve... Não que me faltasse coragem para isso, mas somos duas pessoas que possuem medo de se machucar e de machucar...

Senti que isso era um fora, senão um “quem sabe mais tarde”... Conversamos sobre diversas outras coisas, como se ela quisesse saber um pouco mais sobre como e o que eu pensava a respeito das coisas. Senti-me entrevistado, mais gostei. Uma amiga dela se aproximou, e tive que acalmar a mão boba, discreta, mas ainda assim boba. A cada vez que olhava em meus olhos, mostrava um sorriso como eu nunca havia visto: acolhedor, consolador, lindo. Sentia-me péssimo por sair daquilo sem um beijo seguro, verdadeiro, mais ainda assim, gostei do que havia acontecido conosco.

Descemos do ônibus já perto de casa, e ainda conversando sobre mais e mais coisas, até que eu digo: “Só fico triste por ter que dormir hoje, depois da meia noite, sozinho, e sem gosto de beijo na boca”. Depois de mais algumas palavras, disse:

- Ta me dando uma vontade de ir até a sua casa... Não quero ir para a minha...

- Se não fosse (...) era só bater naquela janela ali e pronto...

Terminei a conversa, despedindo-me com um:

- Não fala isso que eu sou bem capaz de aprontar uma dessas...

A disse...

Ô meu amigo! Conquistar e ser conquistado pode ser um exercício de paciência e tanto. Mas de vcs ainda nao acabou, viu.

Aline Archangelo disse...

Vc escreve bem!! Não tenho mto tempo de parar para ler algumas coisas na internet diferentes do meu tema de pesquisa, mas seu texto tava tão bem escrito q tive q le-lo até o final...

Sinto-me até na obrigação de voltar outra vezes, inclusive pra descobrir o "desfecho" dessa história.

Parabéns!

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